quinta-feira, 15 de julho de 2004

ENTREVISTA DE SOUSA GOMES AO JORNAL "O MIRANTE"

Com a devida vénia aos jornalistas de "O Mirante", transcrevemos na íntegra a entrevista do Presidente da Câmara Municipal de Almeirim, dirigente Distrital do PS e Presidente da Junta da Comunidade Urbana da Lezíria do Tejo.

Pacificação a mais afecta PS

O presidente da Câmara de Almeirim e da Comunidade Urbana da Lezíria do Tejo está pouco entusiasmado com a liderança e a vida interna do PS distrital e fala de pacificação a mais. Apesar disso, Sousa Gomes não gostou das declarações do presidente da Câmara do Cartaxo a O MIRANTE, onde foram feitas algumas apreciações ao trabalho autárquico que tem vindo a ser desenvolvido em Santarém. "Houve quebra de solidariedade", diz. Quanto à sua sucessão à frente do município de Almeirim defende que o mais apto é o vereador Pedro Ribeiro.

Como é que comenta a agitação vivida no interior do PS após a entrevista do presidente da Câmara do Cartaxo a O MIRANTE, onde se criticou a falta de liderança de Santarém no contexto regional?

Analiso essa intervenção na linha das críticas que de uma forma geral todos fazemos ao distrito de Santarém e ao seu peso político. Paulo Caldas pôs alguma tónica na Câmara de Santarém, admito que sim, mas não em exclusivo. Também acaba por tocar na direcção da Comunidade Urbana da Lezíria do Tejo e na Federação Distrital do PS, porque todos têm quota parte de responsabilidade no peso do distrito de Santarém no contexto nacional.

Essa entrevista gerou algum mal estar e foi até abordada num encontro de presidentes de câmara do PS realizada poucos dias depois aqui em Almeirim. Deram um "puxão de orelhas" ao presidente da Câmara do Cartaxo?

Existe entre autarcas e entre presidentes de câmara, até de partidos diferentes, um grande espírito de solidariedade. E na área da Lezíria em particular. A maneira como foram focados alguns aspectos da gestão autárquica de Santarém, pareceu, no espírito de alguns autarcas, que foi uma quebra dessa solidariedade. E quando se trata de pessoas do mesmo partido, estranha-se ainda mais que haja essa quebra de solidariedade. Neste momento acho que é um dever de todos nós contribuir para que a acção do presidente da Câmara de Santarém tenha êxito.

Que balanço faz da actuação de Rui Barreiro?

O presidente da Câmara de Santarém está a fazer um trabalho bastante bom para as possibilidades da sua autarquia. Quanto ao seu comportamento na vida político-partidária, pode suscitar algumas críticas. Admito que sim, porque cada um de nós tem as suas características. Mas não pode haver quebra de solidariedade por esse facto. E a acusação que foi feita ao presidente da Câmara do Cartaxo é essa, fundamentalmente.

Essa situação minou as relações entre os autarcas da Lezíria?

Não. Ainda ontem (8 de Julho) tivemos uma reunião em Santarém, estiveram presentes os presidentes das câmaras de Santarém e do Cartaxo e relacionaram-se normalmente.

As reacções à entrevista de Paulo Caldas acabaram por fazer com que alguns militantes do PS dissessem em voz alta aquilo que já se falava em surdina acerca de Rui Barreiro. Depreende-se que as coisas no interior do PS não estão pacificadas.

Acho que o PS de Santarém neste momento, se alguma crítica tem que se lhe fazer, é de estar pacificado demais.

Está a falar do PS de Santarém concelhio ou distrital?

Distrital.

Será mérito do seu líder, Paulo Fonseca…

Não sei se será mérito. Acho que o partido deve estar pacificado nas relações entre pessoas, mas não tem de estar pacificado na sua vida activa. Deve estar em permanente ebulição, embora com todos a puxar para o mesmo lado.

O PS está bem entregue?

Está entregue a uma pessoa que ganhou as eleições, que concerteza faz todos os esforços para desempenhar bem o seu lugar. Mas acho que haveria vantagens se estivesse à frente da Federação uma figura com outro peso e notoriedade a nível nacional.

Quem é que seria essa figura?

Tenho dificuldade em defini-la. Acho que há uma quebra de valores e que os melhores quadros do PS são os presidentes de câmara, que neste momento não estão disponíveis para assumir lugares desses.

Jorge Lacão não tem perfil para ser essa figura?

Não é o não ter perfil. Acho que Jorge Lacão é a pessoa mais inteligente e conhecedora que temos no PS distrital, tem um valor extraordinário. Mas tenho a sensação que não tem o todo para ser esse líder. Há anos apostei em Conde Rodrigues, mas tomou atitudes que entraram em choque com algumas pessoas. Na política deve-se omitir o que não se deve dizer. Tenho receio que a entrevista de Paulo Caldas a O MIRANTE possa ter consequências dessas.

Paulo Caldas pode ser um potencial candidato a líder distrital do PS?

Uma vez disse-lhe que ele podia ter as ambições mais desmedidas, mas devia ter cuidado em torná-las públicas. Porque todos os militantes têm ambições semelhantes e quando ouvirem um indivíduo a pôr-se em bicos dos pés hão-de fazer tudo para o tramar.

Acredita que é isso que lhe poderá acontecer?

Eu temo, porque penso que aquelas declarações foram um bocado prematuras. Posso estar errado, mas é a opinião de quem anda nisto há muito tempo.

Há pouco dizia que o PS está pacificado até demais. É porque não há debates de ideias?

Não. Acho é que devia haver mais intervenção na vida do partido. De todos, até de nós autarcas. Contra mim falo. Há pouca vivacidade no partido.

Não teme que os processos eleitorais que se avizinham, primeiro as autárquicas e depois as legislativas, com as consequentes escolhas de candidatos, ponham novamente o PS em polvorosa?

Julgo que os meus colegas de uma maneira geral se irão candidatar. E não sei se algum deles passará dificuldades particulares para ganhar a sua câmara. É evidente que muita gente aponta as interrogações de Santarém, essa pode ser a grande dúvida.

Na sua opinião, não há razões para ter dúvidas?

A análise que faço de Santarém é que Rui Barreiro está a fazer trabalho, mas não está a tirar os frutos dele. Isso talvez prejudique a sua imagem enquanto recandidato a Santarém. Agora, o que penso é que tem de se munir de uma postura um pouco diferente da que tem para resolver os problemas políticos de Santarém.

Que género de postura?

A política exige que tenhamos uma postura que se não conseguirmos estar bem com todos, devemos estar bem pelo menos com uma grande maioria e dos outros obter a tolerância. No mínimo isso. Os que estão contra têm que ser muito poucos. Em Santarém isso tem sido um bocado difícil de conseguir, mas com José Miguel Noras também foi.


Criar a identidade regional

Santarém não tem sabido impor a sua liderança à região e transformar-se em motor do desenvolvimento. O que é que tem faltado?

Penso que isso se deve também um bocado ao facto de haver alguns aglomerados no norte do distrito, como Tomar, Abrantes, Torres Novas ou mesmo Ourém, que são de dimensão muito próxima da de Santarém e que levam a uma certa dispersão. Mas Santarém tem condições para assumir a liderança distrital e ter força. Mas deve assumi-la como líder de uma sub-região onde se incluem Almeirim, Alpiarça, Cartaxo, Rio Maior para trazer peso para esta zona do distrito. E a CULT pode contribuir para isso.

Ainda existem bairrismos exagerados?

Os autarcas ainda têm pensado muito nos seus concelhos. É altura de se começar a criar a identidade regional. Santarém pode emergir dessa iniciativa e todos devemos trabalhar para que isso aconteça. Porque também é bom para nós.

A Santarém também parece faltar personalidades que a projectem. O PS, por exemplo, tem sido liderado nos últimos anos por políticos do norte do distrito. A Associação de Municípios da Lezíria tem sido presidida por autarcas de concelhos menos representativos, tal como acontece agora com a comunidade urbana...

Essa, por exemplo, foi uma decisão espontânea e natural dos autarcas e nem sequer houve votação. Entendeu-se que a minha acção à frente da associação de municípios não era de modo a merecer a desconfiança deles. E o próprio Rui Barreiro assumiu essa posição como natural.

É pois uma situação normal.

Temos pensado um bocado na diversidade de funções e de competências sem atendermos que forçosamente tem de ser alguém de Santarém a liderar o que quer que seja apenas porque estamos na capital de distrito. Isso não tem razão nenhuma de ser. A liderança na Lezíria tem sido consentida e repartida. Não tem de ser assumida por uma pessoa com o apoucamento dos outros parceiros. E isso não impediu que esta fosse a região com maior desenvolvimento no país nos últimos 5 anos.

Esse é um discurso para o interior do partido e da própria comunidade urbana. É um contributo para a pacificação?

Penso que não necessitamos neste momento de contributos para a pacificação. Não me parece que haja conflitos. O que acho é que a vida partidária, no PS e outros partidos, está um bocadinho subjugada a alguns interesses pessoais. No princípio da democracia portuguesa havia uma entrega por parte das pessoas e interesse naquilo que daí poderia advir. Era a defesa de ideias, captar eleitorado defendendo princípios. Neste momento vejo muitos interesses pessoais. Sempre que há eleições para o que quer que seja aparece uma quantidade de gente. Muitas vezes sem ter um passado que os abone em termos de competência e imagem pública.