quinta-feira, 5 de agosto de 2004

António José Seguro Acusa Governo de "Desleixo" na Prevenção de Incêndios

O líder parlamentar do PS, ANTÓNIO JOSÉ SEGURO, considera que o Estado não tem dado o exemplo em matéria de prevenção de incêndios florestais e aconselha o Governo a mudar de estratégia. E acusou o executivo de manter uma atitude de "desleixo". "O Governo não aprendeu a lição do flagelo dos incêndios do ano passado", enfatizou Seguro depois de uma ronda efectuada ontem no distrito de Viseu. "Por exemplo, no concelho de Oliveira de Frades, que este ano já foi fustigado por um grande fogo, a mata do Ladário, que é estatal, está completamente ao abandono. Se o Estado não dá o exemplo, como quer que os particulares limpem as matas?", questionou.

O líder parlamentar do PS recordou que, no ano passado, arderam 420 mil hectares de floresta portuguesa, vincando que, até ao momento, as chamas já consumiram mais mato que em igual período do ano passado. "É claro que há causas estruturais de não ordenamento da nossa floresta, mas há outras que dependem de uma acção humana atempada que podia diminuir e muito o risco de incêndios, e isso não foi feito", argumentou.

Da análise efectuada no terreno, e dos contactos mantidos com comandantes de bombeiros do distrito, Seguro concluiu que é urgente tomar duas medidas: o reforço dos meios de vigilância e articular os meios de primeira intervenção. "Há medidas que ainda podem ser tomadas este ano, mas é claro, outras há que já deviam ter sido planeadas com muito mais tempo. É fundamental reforçar os meios de vigilância, uma vez que a prevenção já não vai a tempo", assinalou o socialista.

Seguro reforçou as inquietações de vários bombeiros, que criticam a entrega de viaturas ligeiras - Fiat Punto, Toyota Yaris e Renault Clio - para vigiar as florestas. "Estes automóveis não conseguem entrar nas matas nem nas serras, só servem para andar no alcatrão. É urgente recuperar o plano que existia para reintegrar a vigilância através de motas", aconselhou.

Melhor articulação, mais celeridade

O líder parlamentar do PS criticou ainda o atraso com que o Governo contratualizou os meios aéreos. "Alguns meios aéreos só chegaram a Viseu em meados de Julho, isto não pode ser", reforçou. Salientando a urgência em articular meios eficazes para uma primeira intervenção, Seguro lamentou que, o ano passado, o distrito tenha recebido dois aviões ligeiros, e este ano apenas um ligeiro e um pesado. "Os aviões pesados demoram mais tempo a chegar ao local, têm menos mobilidade", sublinhou. Não querendo especificar se o Governo devia comprar ou alugar meios aéreos, o socialista frisou apenas que o devia fazer com toda a celeridade. "Já em Outubro, isto não é uma causa nacional, não podemos andar a perder tempo", rematou.

"Uma perfeita anedota"

Rebelo Marinho, presidente da Federação Distrital dos Bombeiros de Viseu (FDBV), considera que a entrega de viaturas ligeiras para a vigilância de florestas "só pode ser uma anedota". "Então, se há locais onde nem os nossos carros chegam, vamos por carros urbanos sem qualquer equipamento de primeiro alerta nem de primeira intervenção a patrulhar as matas?", questiona. Manifestando-se "muito preocupado" com o panorama distrital, Marinho salienta que a medida só por ter sido tomada "ou por quem não sabe o que anda a fazer ou por quem quer dificultar a vida aos bombeiros". "Ou então há interesses por detrás disto, ninguém compreende, é uma perfeita anedota", critica. Outro factor de preocupação para o presidente da FDBV foi a inexistência trabalho de prevenção e detecção de incêndios. "À parte da entrega de duas ou três viaturas que ficaram destruídas no ano passado, as 33 corporações do distrito não receberem nem meios, nem equipamentos novos", denunciou. Factores que, de acordo com Rebelo Marinho, levaram a que até ao momento, a dimensão de área ardida no distrito seja quase idêntica à registada nos 12 meses de 2003. "Estamos quase lá, até 25 de Julho tinham ardido 3900 hectares, em todo o ano passado arderam 5.600, isto é inadmissível", concluiu.